É curioso saber que em 1761 o Marquês de Pombal propôs mudar a capital do império português para o interior do Brasil Colônia e desde a primeira constituição republicana de 1891 já havia um dispositivo que previa a mudança da capital, então no Rio de Janeiro, para o interior do país. Fato interessante também a citar, desta época, foi o sonho premonitório do padre italiano São João Bosco, que diz ter visto surgir entre os paralelos 15 e 20 do hemisfério sul, um lugar de muita riqueza, próximo a um lago. Esse lugar é atribuído por alguns intérpretes como sendo Brasília, motivo pelo qual o padre tornou-se é o padroeiro da cidade.
Durante sua campanha eleitoral, em 1955, o candidato Juscelino Kubitschek prometeu construir a nova capital federal como meta-síntese de seu Plano de Metas, e eleito colocou em prática sua promessa, tida por muitos como utópica e desmedida. Para tal convidou Oscar Niemeyer para projetar as edificações da nova capital, arquiteto promissor e já parceiro do então presidente Juscelino Kubitschek desde 1940, quando este era prefeito de Belo Horizonte, a capital do Estado de Minas Gerais, e juntos projetaram e construíram o Conjunto Arquitetônico da Lagoa da Pampulha. Assim Oscar Niemeyer ficou responsável pelos projetos dos edifícios que constituiriam o Plano Piloto da nova capital, enquanto o projeto urbanístico de Brasília seria escolhido através de concurso público, cujo vencedor foi Lúcio Costa, em 1957.
O tão conhecido Plano Piloto de Lúcio Costa, cujo desenho se parece com o formato de um avião, na verdade teve sua forma inspirada no sinal da cruz. A linha central é formada pelo Eixo Monumental, com os edifícios regionais na extremidade noroeste e os edifícios do governo federal a sudeste, em torno da Praça dos Três Poderes, o coração conceitual de Brasília. Na linha transversal da “cruz” temos o Eixo Transversal onde estão outros setores temáticos como o de Habitações, Comercial e Hoteleiro, inicialmente idealizado como uma linha reta, mas que sofreu a conhecida curvatura, como asa de avião, para que a implantação se adequasse ao relevo natural da região.
A cidade começou a ser planejada e construída em 1956 e foi inaugurada em 1960, surpreendentemente o Plano Piloto de Brasília foi construído em tempo recorde, menos de 4 anos.
A nova capital seguiu os preceitos modernistas da época e foi a maior cidade projetada e construída no século XX. Marco da arquitetura e urbanismo modernos a Capital Federal do Brasil, conhecida carinhosamente como BSB foi tombada como Patrimônio Histórico pela Unesco em 1987, devido a seu conjunto arquitetônico e urbanístico único e inigualável, além de maior do mundo com 112,5 quilômetros quadrados. Esta cidade linda, projetada para ter uma população de 500 mil habitantes até o ano 2000, já possuía uma população de 1,5 milhão em 1991 e de lá para cá não parou de crescer e se tornou uma potência. A cidade recebe cerca de um milhão de visitantes anualmente e este número cresce a cada ano. Com cerca de 2.5 milhões e meio de habitantes, Brasília é hoje a quarta cidade mais populosa do Brasil, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.
Além do seu valor histórico e cívico e de seus monumentos belíssimos, Brasília conta com lindos parques, jardins e o Lago Paranoá que completam a beleza da cidade, tornando-a admirável e encantadora, para não dizer apaixonante. Eu, pelo menos, sou apaixonada por Brasília, mas Brasília não é feita só de monumentos arquitetônicos e naturais belíssimos, Brasília é feita de gente, de todos os cantos deste Brasil, que construíram o sonho de Juscelino, materializaram os traços de Niemeyer e Lúcio Costa e, sobretudo, trouxeram vida ao Planalto Central, vida que vibra e torna este lugar tão especial e encantador.
Como disse, sou apaixonada por esta cidade que faz parte da minha história de vida desde os tempos de estudante de arquitetura, quando a visitei pela primeira vez, 23 anos atrás, para ver de perto tudo o que havia aprendido sobre Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Joaquim Cardoso e o Plano Piloto de Brasília.
Brasília sempre me encantou por sua monumentalidade, sua riqueza arquitetônica e artística, além da amplidão formada por seus jardins e parques que me trazem uma paz enorme. Digo sempre que Brasília precisa ser vista e vivenciada, só respirando o ar de Brasília é possível entender esta cidade tão incrível.
Como arquiteta uma imagem de Brasília me marcou, foi a capa de meu convite de formatura, e hoje, como fotógrafa, vejo o quanto ela é ainda mais significativa, pois tem a força de retratar um momento, um sentimento, um estado de espírito que acredito ser comum a todos que visitam Brasília pela primeira vez…. o momento da admiração, da contemplação e êxtase . Temos aqui, o encontro de duas artes, arquitetura e fotografia, que como tal, mechem com o imaginário, as sensações e sentimentos das pessoas, e isto é encantador, é o que traz sentido à arte.
Foto de René Burri, datada de 1960, onde se retrata um dos muitos construtores da nova capital, conhecidos como “candango” ( nome dado aos operários vindos, em sua grande maioria, do Nordeste do país) levando sua família para conhecer a cidade que ajudou a construir. É emocionante observar os olhares de admiração e fascínio destas pessoas diante da grandiosidade e beleza de Brasília.
Eu já fiz inúmeras viagens a Brasília, mas confesso que cada vez vejo-a com outros olhos, descubro novos lugares e me encanto cada vez mais. A última viagem foi em dezembro de 2019, na companhia do meu marido Marcos Wilke e a convite da Urban Arts Brasília para inauguração de sua nova galeria em Águas Claras, uma região administrativa e residencial de Brasília.
Eu que amo Brasília por toda sua história, arquitetura e arte propus ao Marcos que fizéssemos um ensaio diferente, que retratasse a arquitetura da cidade de forma a ressaltar o traço do arquiteto e os detalhes construtivos, como uma homenagem à criação artística e àqueles que efetivamente construíram esta cidade icônica e linda.
A conceituação deste ensaio fotográfico se inspirou na foto de René Burri, com o intuito de mostrar a relação entre a arquitetura de Brasília e as pessoas que construíram a cidade, entre o traço do arquiteto criador e a mão que consolidou a criação artística, que transformou o sonho de Juscelino em realidade, pois a arte de Niemeyer e Lúcio Costa só se tornaram monumentos através da força humana, daqueles que efetivamente construíram Brasília, e é nesta simbiose que se encerra a verdadeira beleza da Capital Federal do Brasil, a relação entre arte, arquitetura e vida humana.
Ao contrário do que dizem que “Brasília segrega as pessoas pela monumentalidade de seus palácios e amplitude de seus espaços” eu vejo e sinto de forma diferente….vejo-a e sinto-a como obra de criação que transcendeu ao comum e ao tempo, como grandiosidade que acolhe a muitos, como imensidão que é de todos, como história rica de muitas outras histórias, feitas de pessoas sonhadoras, criativas e batalhadoras, pessoas unidas em construir uma cidade linda, forte e acolhedora, uma cidade que seja realmente a Capital de um país.
Eu e Marcos acreditamos que a arte precisa tocar as pessoas, despertar sensações e emoções, e este é o objetivo deste nosso ensaio, mostrar o quanto Brasília é humana em sua essência.
As fotografias deste ensaio, que hoje fazem parte do acervo da URBAN ARTS, trazem detalhes da arquitetura, dos Palácios, Igrejas e outros edifícios de Brasília, rica em sua composição geométrica, efeitos de luz e sombra e texturas, que evidenciam o traço criativo, as concepções e inspirações artísticas, assim como também mostram a forma construtiva, muitas vezes com sinais de fôrmas ou ferramentas, presentes como verdadeiras digitais daquelas mãos que a construíram, que fizeram a história de Brasília.
Esperamos transmitir através destas imagens, ora de composição minimalista, ora brutalista, que a presença humana sempre se faz presente, que atrás de cada traço há uma história e atrás de cada criação, um coração pulsante.
Deixamos aqui, neste mês de abril em que Brasília comemora 60 anos de criação, nossa homenagem e admiração.
Stela Araújo
15 de abril de 2020
